Presente em mais de 75% das áreas agrícolas amostradas no Brasil, o Pratylenchus brachyurus não forma galha nem cisto. Some no meio da lavoura, é confundido com compactação e deficiência nutricional, e encontra no sistema soja-milho a condição perfeita para se multiplicar o ano inteiro.
Em 2012, pesquisadores da Embrapa Soja mapearam um talhão comercial em Vera, no médio-norte de Mato Grosso, com uma grade de 100 pontos de amostragem. O que encontraram deu ao problema uma medida que faltava: as perdas variaram de 1 a 28 sacas por hectare dentro da mesma área, com média de 12 sacas por hectare — 21% do potencial produtivo. E estabeleceram a relação que virou referência: a cada 82 indivíduos por grama de raiz, perde-se uma saca por hectare.
Nenhuma dessas plantas apresentava sintoma que chamasse atenção de longe.
O Pratylenchus brachyurus é um endoparasita migrador. Ele entra na raiz, caminha pelo córtex se alimentando e destruindo as células do parênquima, e sai — repetindo o processo em outro ponto. O rastro são lesões necróticas escuras ao longo do sistema radicular, que dão nome ao grupo: nematoide das lesões radiculares.
Diferente do nematoide de galha (Meloidogyne), ele não deforma a raiz. Diferente do nematoide de cisto (Heterodera glycines), não deixa estrutura visível no solo. Não há nada para arrancar e mostrar.
Na parte aérea, o sintoma é genérico: plantas menores, com menos porte, às vezes cloróticas. A Embrapa Soja registra uma característica diagnóstica sutil — as plantas ficam menores mas permanecem verdes. É o tipo de quadro que se atribui a compactação, a solo arenoso fraco, a veranico ou a deficiência de nutriente. E quase sempre se atribui.
Há ainda um agravante que embaralha o diagnóstico: as lesões abrem porta para patógenos secundários — Fusarium, Rhizoctonia, Verticillium. Parte do dano que se vê é dos fungos que entraram depois. Por isso a Embrapa o chama de "nematoide oportunista".
A Sociedade Brasileira de Nematologia estima em R$ 35 bilhões por ano o prejuízo causado por nematoides no Brasil, sendo cerca de R$ 16 bilhões apenas na soja — número reafirmado em julho de 2026 no Seminário Nacional de Controle de Nematoides, organizado pelo MAPA em parceria com a SBN.
Sobre a disseminação, o levantamento mais amplo já feito no país analisou 21.661 amostras de solo na safra 2021: o gênero Pratylenchus apareceu em mais de 75% das áreas, o mais disseminado do Brasil. Em Mato Grosso, um levantamento do IMAmt em 1.799 talhões de algodão entre 2012 e 2015 encontrou P. brachyurus em 96,2% deles.
No Rio Grande do Sul, dados do Instituto Phytus mostram avanço: de 69% das amostras entre 2012 e 2014 para 72,8% em 2018.
Aqui está o ponto que mais compromete o manejo no Cerrado, e ele é contraintuitivo.
O P. brachyurus é um parasita eficiente de gramíneas. Um estudo da UFLA avaliou 12 híbridos de milho em Sorriso e Tapurah (MT): 11 dos 12 foram classificados como suscetíveis, com fator de reprodução chegando a 6,36. Apenas um híbrido ficou abaixo de 1.
Isso significa que a sucessão soja no verão, milho na safrinha — o sistema padrão do Brasil Central — oferece ao nematoide oito a nove meses de reprodução contínua por ano. O que se chama de rotação, para esta espécie, é sequência de hospedeiros.
A braquiária, que muitos produtores usam como cobertura justamente pensando em manejo de nematoide, também multiplica o P. brachyurus. Em ensaio da Embrapa em Vera/MT na safra 2012/13, as parcelas que vinham de B. ruziziensis e B. brizantha 'Marandu' apresentaram de 300 a 500 nematoides por grama de raiz na soja seguinte, contra 50 a 100 nas parcelas de crotalária e milheto. A produtividade acompanhou: 1.800 a 2.200 kg/ha após braquiária, contra 3.000 a 3.200 kg/ha após Crotalaria spectabilis ou milheto ADR 300.
A diferença chega a 23 sacas por hectare.
Atenção a uma informação incorreta que circula: alguns materiais técnicos classificam a braquiária como não hospedeira de P. brachyurus. Isso vale para o nematoide reniforme e para Meloidogyne, não para o nematoide das lesões. A única exceção documentada pela Embrapa é a Brachiaria humidicola cv. BRS Tupi, lançada especificamente como ferramenta de rotação para esta espécie — e que, segundo a própria Embrapa, não serve para integração lavoura-pecuária.
Não existe cultivar de soja resistente a Pratylenchus brachyurus no Brasil. Isso é consenso técnico, sustentado pela Embrapa Soja desde a Circular Técnica 76 e reafirmado na literatura recente — em estudo publicado na Ciência Rural em 2025, a cultivar avaliada como favorável foi descrita como tolerante, não resistente.
A distinção não é semântica:
A consequência prática é dura: uma cultivar apenas tolerante segura o rendimento naquela safra e entrega o talhão mais infestado para a cultura seguinte. Tolerância é alívio de safra, não solução de sistema.
Para dimensionar: a soja tem FR entre 8,7 e 11,9. A Crotalaria spectabilis, entre 0,0 e 0,3. O critério, estabelecido por Oostenbrink em 1966 e usado até hoje, é simples — FR igual ou maior que 1 indica boa hospedeira; abaixo de 1, má hospedeira.
O que existe no mercado, e é legítimo, são cultivares tolerantes e cultivares de menor fator de reprodução. Quando um material de campo informa "baixo F.R. para Pratylenchus brachyurus", está usando o termo correto. Promessa de "resistência" a este nematoide em soja está em desacordo com a Embrapa.
Como parte das estratégias para o manejo de Pratylenchus brachyurus, a Genética Pampeana vem avaliando o comportamento de suas cultivares em condições de alta pressão do nematoide. Em ensaio conduzido pela Science Nema, Lenda IPRO e Indiara IPRO foram submetidas a populações de 1.000, 5.000 e 10.000 espécimes por planta.
Os resultados demonstraram melhor desempenho radicular de Lenda e Indiara em relação à cultivar referência 8.0, reforçando o potencial dessas cultivares como parte de uma estratégia integrada de manejo em áreas com ocorrência do nematoide. Genética que entrega produtividade, mas também respostas aos desafios reais do campo.